Porque ser feliz é básico, é fácil, um tédio sem tamanho. Mas viver obrigado, sufocado e no auge da angústia existencial é uma tarefa masoquista e, claro, fascinante.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Das peculiaridades
Fascina-me pensar no sofrimento emocional de cada ser. Suas dúvidas, assim como suas certezas, são adoráveis e estranhamente instigantes, pelo menos para mim. Sempre tive uma ligação bizarra com sentimentos estranhos, atribulados, sofríveis; da alienação urbana ao rompimento de um simples namoro, não há como afastar-me desses temas. Os normais, os felizes, os alegres pela vida não me atraem, como nunca conseguiram me atrair; diferentemente das pessoas atormentadas, conturbadas, errantes; àquelas cujos caminhos estão traçados pela perdição, pelo vícios prejudiciais e gosto pelo dark. Os seres cujo sofrimento emocional ultrapassaram uma certa cota e ainda assim permanecem vivos são de admirar, assim como os suicidas que se foram cedo. Não é à toa que personagens torturados de toda a cultura são meus maiores ídolos; Kurt Cobain e Ian Curtis na música, até os filósofos da descrença, Nietzsche e Schopenhauer.
A vontade
tragaria dos deuses
seu gosto pelo mágico
da noite sombria
ao belo amanhecer
não acordaria mais
para fugir dos pensamentos
que torturam minha'lma
pra triturar da minha vida
sonhei com seus desejos
como se fossem meus
e você entorpeceu dos meus vícios
como se fossem seus
gritaria meu desespero
que não cabe mais em mim
atordoado pela vida
de quem já descobriu seu segredo
Ausência
joguei minhas fichas
pra encontrar sua vida
preenchida pelo rio
do caminho vazio
observei os cometas
no repouso
de quem pensa demais
no que não deveria pensar
acordei cedo
para tomar meu café
e acender meu cigarro
quando não achei meu isqueiro
senti na pele
a dor dos que sofrem
nesse mundo insano
dos que vivem e morrem
Sobre a culpa
acordei de manhã
pensando na morte
como quem pensa na vida
que foi embora
pensei nas estrelas
abracei as trevas
pra encontrar o sol
da próxima vez
tentei sem sucesso
busquei meu caminho
através da dor
pra mergulhar na culpa
fui atrás
pequei, busquei
em vão
nos bosques
onde os pássaros cantam
felizes por não serem humanos.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Morra jovem, permaneça belo
Fascina-me os que morrem cedo
Na certeza da conquista
Dos ideais que já tiveram
De uma noite sem saída
Na escuridão dos assassinos
Ou na amargura dos poetas
O sofrimento é permanente
Como uma vida sem presente
Aproveitar o leito da morte
É mergulhar no seu legado
Apagar o seu futuro
P'ra esquecer do seu passado
Esquecer da tua vida
Como os heróis que já se foram
E os mitos que nasceram
Através de sua morte
OBS: Título retirado da frase do ex-vocalista do Nirvana, Kurt Cobain.
Saberia eu escrever?
Eu poderia descrever minha fábula nos restícios de uma carta,
Saberia dizer o quão real foi aquilo?
Demasiado intenso, forte e corajoso para sentir em uma só pulsação
Almejaria teus sonhos em meus pensamentos?
Imaginei os caminhos da tua vida enquanto delirava por minha alma,
Seria eu capaz de disassociar meus pensamentos de você?
Como um mortal abraça seus ideais, duvidando de suas crenças
Ou os poetas que amarguram sua existência, na sinceridade de um olhar?
Escrevi seu soneto em minha pele, esquecendo-me da idiotice eu fizera
Poderia eu apagar tua face de minha mente?
Esqueci-me de quão bela tu eras, teus olhos, tua boca
Enquanto entorpecia-me pelos traços da escuridão
Tua delicadeza me fascina,
Assim como teu olhar me espanta
De uma noite profunda que vivera
Sem saber ao menos o teu nome
A aflição do sentir
Nasce um novo espírito. Corrói-me pensar nos fantasmas que me assombram, nos demônios que me envolvem. Frustra-me dizer que os sonhos se foram, que a realidade sucumbiu minha memória. Culpo-me pelos sentimentos de hoje, surgidos de uma ação em outrora, capaz de tirar meu sono, de cada noite, com a certeza que jamais voltarei no tempo.
Penso na noite que tivera, na realidade que vivi. Seria um oceano demasiado grande para um turbilhão de sentimentos? Asseguro-me das dúvidas, como um leão arremata sua presa. Errei tanto que faltou-me palavras para desculpar e ações para realizar. Poderia eu apagar pessoas da memória, esquecer fatos da minha existência? Quis sufocar o indomável, apagar as chamas de um vulcão, martirizar um mero pecador.
Procurei pelos cantos, os vestígios do que nunca acontecera. Senti nos ossos minha insônia ferir o orgulho, minha dor latejar no fundo da alma. Sabia que o eterno não aconteceria, meu desespero surgiria, no próximo dia
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch

Na ensolarada Flórida ou na instigante Clevand, as coisas são iguais. Aqui ou acolá, encontraremos, no fim, a mesma coisa; pessoas desiludidas, amores despedaçados e conversas banais. Assim como no Rio ou em São Paulo, finalizaremos do mesmo modo, seja em uma badalada boate da capital paulista ou na praia de Cobacabana. Os humanos, desde que são humanos, sempre foram e serão os mesmos: tolos, sonhadores e banais.
Willie é um nova-iorquino sem grandes ocupações ou afazeres, que ao receber sua prima Eve, passa os dias jogando baralho e jogando conversa fora, resultando numa afeição mútua. No meio do parentesco internacional, ainda há o amigo de Willie, que é tão desocupado como ele. Mas por que um filme sem grandes acontecimentos, envolvendo conversas corriqueiras e descartáveis é tão interessante? A resposta é simples: é um filme sobre a rotina, os dias que não passam, mas deveriam passar. Jarmusch foca nesse assunto com tamanha simplicidade e sinceridade, que aquele marasmo do primeiro ato, transforma-se na mais bizarra aventura, da qual mergulhamos com ingenuidade parecida à dos personagens em questão.
Se houvesse um filme no qual exemplificar toda a natureza humana, sem pastenejar escolheria esse. Não pela abrangência de conteúdos novos, ou pelas famosas cidades compostas no título. Isso é apenas um pretexto fantasioso pra mesma realidade chata, enfadonha, porém, realidade essa em que vivemos, realidade aquela em que construimos nossos sonhos. Realidade na qual tomaremos um café, acenderemos um cigarro e jogaremos um baralho como animais perdidos e ociosos.
Contudo, os três viajam, esperançosos que algo poderá mudar. Mas nada. As apostas de Willie só mudam de endereço e o desapontamento de Eve só muda de apartamento. Tudo permanece tão enfadonho, tão sem-graça, que continuam contentando-se com os cafés, cigarros e baralho já citados. E quando dizem que cinema é trascedental, eis um belo exemplo do quão presente ele está em nossas vidas e o quão presente nossas vidas estão nele.
Nota: 4,5/5,0
Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Richard Edson, John Lurie, Eszter Balint, Cecilia Stark, Danny Rosen, Tom Dicillo, Richard Boes, Paul Sloane
Cisne Negro, de Darren Aronofsky

Quando a belíssima Nina descobre que o aclamado diretor da escola de balé em que trabalha fará uma adaptação distorcida e vertiginosa do clássico 'O Lago dos Cisnes', seus olhos enchem d'água e seu coração pulsa como nunca. Mal sabe ela que sua perfeição dependerá, acima de tudo, dos sacrifícios pessoais.
É assim que o novo filme de Aronofsky dá suas caras ao público. E é do mesmo jeito que enlouquecemos com sua trama perturbadora e intensa, seu mais novo suspense psicológico. Bem, vamos a história. Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas interiores, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis).
Primeiro de tudo, é importante ressaltar que além da trama envolvente e muito bem produzida, Cisne Negro é um filme de atmosfera. De clímaxes desconcertantes, assustadores e, por vezes, clasutrofóbicos. A fragilidade quase infantil da 'sweet girl', como é chamada pela mãe, é posta à prova no papel que lhe atormenta cada vez mais. Como ela bem sabe, não conseguirá realizar os dois papéis excedendo à seu lado meigo, deixando-se entrar por um aspiral de perfeição doentio e aterrorizante. Quando Nina vê sua face enquanto caminha, há uma negação da própria personalidade, como se ali, em uma fração de segundo, houvesse uma poderosa mulher, aprisionada em um corpo aquém do que poderia suportá-la.
Nesse clímax ainda misterioso que Aronofsky dá seus primeiros passos, ainda naconstrução fértil da trama. O segundo ato, diferentemente do primeiro, sacramenta algo que já estava no nariz de Nina, mas só ela não conseguia enxergar: sua natureza era boa demais para encarnar os dois lados da moeda, os dois demônios que causariam-lhe uma total perda da realidade. Assim como Aronofsky dita cada passo na insanidade, Natalie Portman contribui ainda mais na construção de Nina, fazendo-a com um realismo ímpar. E os dois, como os Cisnes já mencionados, trabalham juntos, no apoteótico desfecho.
Desfecho esse que transforma uma mártir conturbada numa heroína atormentada; consolidando a insaciável busca pela perfeição, que só é possível de ser alcançada com esforço, insanidade e principalmente, muito sacrifício. Desfecho esse que assassina sua principal estrela, em pról do espetáculo; mas é tudo tão perfeito, tão lindo e tão devastador que é impossível que tamanha ruína não sugue sua entrega em pról da vida. Eis Cisne Negro, ou melhor: eis A perfeição.
Nota: 4,5/5,0
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Natalie Portman, Vicent Cassel, Winona Ryder, Mila Kunis
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Uma conclusão de um escritor informal
Cada dia que vivo, mais vejo que é necessário escrever pra não enlouquecer.
Um devaneio qualquer
Pairou-se um vazio sobre mim. Descomunal, alarmante, arrasador. Ocorreu-me que viver é uma sorte e um azar, ao mesmo tempo. Estamos sujeitos às alegrias da vida, assim como às tragédias. É um paradoxo de caminhos. Você se cansa por não saber os porquês da vida, mas se os soubesse, acabaria com a graça de tudo. É como um truque de mágica; se soubéssemos o segredo por trás do show, não iríamos mais assistí-lo. A existência humana, pode ser fugaz e veloz, como também pode ser duradoura e sofrível. Isso dependerá das peculiaridades de cada ser, das peculiaridades ínfimas de cada vida presente aqui na Terra. Desde a pequena semente no fundo de cada plantação até a possível existência de uma entidade superior, tudo é misterioso, tudo é miraculoso. Do vazio humano, surgem os hábitos e vícios; a fissura por um café e cigarro ou o desejo de um bate-papo informal. Mas a lacuna sempre estará presente em nossa rotina, por mais que não a vejamos.
Ocorreu-me, enquanto filosofava sobre esses aspectos, que nossa vida é tão significante(ou insignificante, depende do posto de vista) quanto à de parasitas invisíveis ou animais ferozes. Só preferimos esconder esse fato pelo inconveniente que essa nova concepção de mundo traria em nossa vaga existência. Assim como esse fator um tanto quanto óbvio, pensei no sofrimento humano, nas angústias de cada ser. É inevitável que não nos sensibilizemos com morte, dor, alienação, enfim, todos os aspectos miseráveis presentes nesse mundo. E novamente, há o paradoxo da alegria e da tristeza; do êxtase e da dor; da felicidade e do sofrimento; e por aí vai.
Até os seres humanos mais inteligentes, foram sucumbidos pela dor da existência. Ou será que as relações evidentes entre genialidade e loucura são meras coincidências? Os insanos, os atormentados, são os que mais ofereces, pois descrentes perante a vida e as pessoas, fazem de tudo para mudar esse panorama angustiante.
Pensando em todos esses temas, ocorreu-me outra conclusão, agora pra finalizar: Os mais felizes são os que estão mais longe da própria existência, correndo de si mesmo.
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