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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch




Na ensolarada Flórida ou na instigante Clevand, as coisas são iguais. Aqui ou acolá, encontraremos, no fim, a mesma coisa; pessoas desiludidas, amores despedaçados e conversas banais. Assim como no Rio ou em São Paulo, finalizaremos do mesmo modo, seja em uma badalada boate da capital paulista ou na praia de Cobacabana. Os humanos, desde que são humanos, sempre foram e serão os mesmos: tolos, sonhadores e banais.

Willie é um nova-iorquino sem grandes ocupações ou afazeres, que ao receber sua prima Eve, passa os dias jogando baralho e jogando conversa fora, resultando numa afeição mútua. No meio do parentesco internacional, ainda há o amigo de Willie, que é tão desocupado como ele. Mas por que um filme sem grandes acontecimentos, envolvendo conversas corriqueiras e descartáveis é tão interessante? A resposta é simples: é um filme sobre a rotina, os dias que não passam, mas deveriam passar. Jarmusch foca nesse assunto com tamanha simplicidade e sinceridade, que aquele marasmo do primeiro ato, transforma-se na mais bizarra aventura, da qual mergulhamos com ingenuidade parecida à dos personagens em questão.

Se houvesse um filme no qual exemplificar toda a natureza humana, sem pastenejar escolheria esse. Não pela abrangência de conteúdos novos, ou pelas famosas cidades compostas no título. Isso é apenas um pretexto fantasioso pra mesma realidade chata, enfadonha, porém, realidade essa em que vivemos, realidade aquela em que construimos nossos sonhos. Realidade na qual tomaremos um café, acenderemos um cigarro e jogaremos um baralho como animais perdidos e ociosos.

Contudo, os três viajam, esperançosos que algo poderá mudar. Mas nada. As apostas de Willie só mudam de endereço e o desapontamento de Eve só muda de apartamento. Tudo permanece tão enfadonho, tão sem-graça, que continuam contentando-se com os cafés, cigarros e baralho já citados. E quando dizem que cinema é trascedental, eis um belo exemplo do quão presente ele está em nossas vidas e o quão presente nossas vidas estão nele.

Nota: 4,5/5,0

Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Richard Edson, John Lurie, Eszter Balint, Cecilia Stark, Danny Rosen, Tom Dicillo, Richard Boes, Paul Sloane

Cisne Negro, de Darren Aronofsky




Quando a belíssima Nina descobre que o aclamado diretor da escola de balé em que trabalha fará uma adaptação distorcida e vertiginosa do clássico 'O Lago dos Cisnes', seus olhos enchem d'água e seu coração pulsa como nunca. Mal sabe ela que sua perfeição dependerá, acima de tudo, dos sacrifícios pessoais.

É assim que o novo filme de Aronofsky dá suas caras ao público. E é do mesmo jeito que enlouquecemos com sua trama perturbadora e intensa, seu mais novo suspense psicológico. Bem, vamos a história. Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas interiores, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis).

Primeiro de tudo, é importante ressaltar que além da trama envolvente e muito bem produzida, Cisne Negro é um filme de atmosfera. De clímaxes desconcertantes, assustadores e, por vezes, clasutrofóbicos. A fragilidade quase infantil da 'sweet girl', como é chamada pela mãe, é posta à prova no papel que lhe atormenta cada vez mais. Como ela bem sabe, não conseguirá realizar os dois papéis excedendo à seu lado meigo, deixando-se entrar por um aspiral de perfeição doentio e aterrorizante. Quando Nina vê sua face enquanto caminha, há uma negação da própria personalidade, como se ali, em uma fração de segundo, houvesse uma poderosa mulher, aprisionada em um corpo aquém do que poderia suportá-la.

Nesse clímax ainda misterioso que Aronofsky dá seus primeiros passos, ainda naconstrução fértil da trama. O segundo ato, diferentemente do primeiro, sacramenta algo que já estava no nariz de Nina, mas só ela não conseguia enxergar: sua natureza era boa demais para encarnar os dois lados da moeda, os dois demônios que causariam-lhe uma total perda da realidade. Assim como Aronofsky dita cada passo na insanidade, Natalie Portman contribui ainda mais na construção de Nina, fazendo-a com um realismo ímpar. E os dois, como os Cisnes já mencionados, trabalham juntos, no apoteótico desfecho.

Desfecho esse que transforma uma mártir conturbada numa heroína atormentada; consolidando a insaciável busca pela perfeição, que só é possível de ser alcançada com esforço, insanidade e principalmente, muito sacrifício. Desfecho esse que assassina sua principal estrela, em pról do espetáculo; mas é tudo tão perfeito, tão lindo e tão devastador que é impossível que tamanha ruína não sugue sua entrega em pról da vida. Eis Cisne Negro, ou melhor: eis A perfeição.

Nota: 4,5/5,0

Direção: Darren Aronofsky

Elenco: Natalie Portman, Vicent Cassel, Winona Ryder, Mila Kunis