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domingo, 20 de março de 2011

Indizível

Necessito escrever, sobre algo indizível. Perdi essa vontade de entender, tudo aquilo que gostaria de perceber. Decidi aceitar os caminhos que seguimos, essa trajetória tortuosa da qual prosseguimos. Procurei aceitar as escolhas que fizera, compreender os erros que tivera, para facilitar minha aceitação. Odiei, amei, vi, me assustei. Assustei-me pelos fantasmas que encontrei, pelas renúncias que escolhi, pelas pessoas que abriguei.

Escondi minha alma no poço da perdição, triturei minha convicção. Sabia que havia destruído o meu eu, entendi que só sobraria uma matéria, tão indizível quanto todos, tão fraca quanto os tolos.

sábado, 5 de março de 2011

Desespero

É necessário afundar na lama para evoluir. Sentir-se solitário como os deuses, sofrer como os doentes ou mastigar da sua dor. Poderia ser mais direto do que isso? Os viciados talvez sintam isso, pois é fato que os sintomas de abstinência são parecidos com os descritos acima. Mas não é necessário droga alguma pra vivenciar o desespero. Só precisamos de coragem pra mergulhar na escuridão, tragar da solidão, como um viciado afunda na auto-destruição. Saber do abismo da vida, da ruína da existência, do nonsense espacial. Almejar os sonhos impossíveis, as conquistas ilusórias, para acordar com um peso insuportável. Porque às vezes, é necessário.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ausência

joguei minhas fichas
pra encontrar sua vida
preenchida pelo rio
do caminho vazio

observei os cometas
no repouso
de quem pensa demais
no que não deveria pensar

acordei cedo
para tomar meu café
e acender meu cigarro
quando não achei meu isqueiro

senti na pele
a dor dos que sofrem
nesse mundo insano
dos que vivem e morrem

Sobre a culpa

acordei de manhã
pensando na morte
como quem pensa na vida
que foi embora

pensei nas estrelas
abracei as trevas
pra encontrar o sol
da próxima vez

tentei sem sucesso
busquei meu caminho
através da dor
pra mergulhar na culpa

fui atrás
pequei, busquei
em vão
nos bosques
onde os pássaros cantam
felizes por não serem humanos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Saberia eu escrever?

Eu poderia descrever minha fábula nos restícios de uma carta,
Saberia dizer o quão real foi aquilo?
Demasiado intenso, forte e corajoso para sentir em uma só pulsação
Almejaria teus sonhos em meus pensamentos?

Imaginei os caminhos da tua vida enquanto delirava por minha alma,
Seria eu capaz de disassociar meus pensamentos de você?
Como um mortal abraça seus ideais, duvidando de suas crenças
Ou os poetas que amarguram sua existência, na sinceridade de um olhar?

Escrevi seu soneto em minha pele, esquecendo-me da idiotice eu fizera
Poderia eu apagar tua face de minha mente?
Esqueci-me de quão bela tu eras, teus olhos, tua boca
Enquanto entorpecia-me pelos traços da escuridão

Tua delicadeza me fascina,
Assim como teu olhar me espanta
De uma noite profunda que vivera
Sem saber ao menos o teu nome

A aflição do sentir

Nasce um novo espírito. Corrói-me pensar nos fantasmas que me assombram, nos demônios que me envolvem. Frustra-me dizer que os sonhos se foram, que a realidade sucumbiu minha memória. Culpo-me pelos sentimentos de hoje, surgidos de uma ação em outrora, capaz de tirar meu sono, de cada noite, com a certeza que jamais voltarei no tempo.

Penso na noite que tivera, na realidade que vivi. Seria um oceano demasiado grande para um turbilhão de sentimentos? Asseguro-me das dúvidas, como um leão arremata sua presa. Errei tanto que faltou-me palavras para desculpar e ações para realizar. Poderia eu apagar pessoas da memória, esquecer fatos da minha existência? Quis sufocar o indomável, apagar as chamas de um vulcão, martirizar um mero pecador.

Procurei pelos cantos, os vestígios do que nunca acontecera. Senti nos ossos minha insônia ferir o orgulho, minha dor latejar no fundo da alma. Sabia que o eterno não aconteceria, meu desespero surgiria, no próximo dia

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O ápice da solidão

Você olha pro lado, não vê ninguém. Olha pro outro e só enxerga sua própria sombra. O quão solitário um ser humano pode ser? A qual nível de solidão existencial e física alguém é capaz de suportar? Eu, naturalmente, sempre fui um indivíduo um pouco afastado da maioria, nos dois aspectos (físico e existencial) Porém, o primeiro deles - o físico - nunca sequer me incomodou, tirando momentos de isolamento extremo. Agora, o segundo, é sim aterrorizante e amedrontador. Saber que existem pessoas que estarão do seu lado para apoiar-me nas dificuldades e para rir das vitórias é um consolo... Mas e quando essas pessoas, sendo mais específico, esses amigos, cuidam das suas próprias vidas? É uma maré de desgosto rondando à sua volta. Aqueles seus amigos, cujas conversas gravitavam em torno da solidão existencial do homem, não estão mais assim. Você não "divide" sua solidão com os outros. Apenas diminuiu seus contatos e, para suprir tal carência, é necessário que haja uma pessoa tão solitária quando você para lhe deixar, no mínimo, contente. Mas aí eu pergunto: E quando não sobra nenhum amigo? Quando, indubitavelmente, seus melhores amigos estão vivendo suas próprias vidas, namorando, se divertindo, enquanto você ainda está afundado na lama? Juro que não sou tão egoísta à ponto de não ficar feliz por ele, ora, pelo menos saíram do buraco que implica na solidão. Em contrapartida, com quem podemos dividir nesse momento de distância minhas angústias mais profundas? É nesse momento que um ser humano fica se perguntando se a solidão é realmente um privilégio dos espíritos eminentes ou somente uma condição dos fracos.