domingo, 20 de fevereiro de 2011

A aflição do sentir

Nasce um novo espírito. Corrói-me pensar nos fantasmas que me assombram, nos demônios que me envolvem. Frustra-me dizer que os sonhos se foram, que a realidade sucumbiu minha memória. Culpo-me pelos sentimentos de hoje, surgidos de uma ação em outrora, capaz de tirar meu sono, de cada noite, com a certeza que jamais voltarei no tempo.

Penso na noite que tivera, na realidade que vivi. Seria um oceano demasiado grande para um turbilhão de sentimentos? Asseguro-me das dúvidas, como um leão arremata sua presa. Errei tanto que faltou-me palavras para desculpar e ações para realizar. Poderia eu apagar pessoas da memória, esquecer fatos da minha existência? Quis sufocar o indomável, apagar as chamas de um vulcão, martirizar um mero pecador.

Procurei pelos cantos, os vestígios do que nunca acontecera. Senti nos ossos minha insônia ferir o orgulho, minha dor latejar no fundo da alma. Sabia que o eterno não aconteceria, meu desespero surgiria, no próximo dia

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch




Na ensolarada Flórida ou na instigante Clevand, as coisas são iguais. Aqui ou acolá, encontraremos, no fim, a mesma coisa; pessoas desiludidas, amores despedaçados e conversas banais. Assim como no Rio ou em São Paulo, finalizaremos do mesmo modo, seja em uma badalada boate da capital paulista ou na praia de Cobacabana. Os humanos, desde que são humanos, sempre foram e serão os mesmos: tolos, sonhadores e banais.

Willie é um nova-iorquino sem grandes ocupações ou afazeres, que ao receber sua prima Eve, passa os dias jogando baralho e jogando conversa fora, resultando numa afeição mútua. No meio do parentesco internacional, ainda há o amigo de Willie, que é tão desocupado como ele. Mas por que um filme sem grandes acontecimentos, envolvendo conversas corriqueiras e descartáveis é tão interessante? A resposta é simples: é um filme sobre a rotina, os dias que não passam, mas deveriam passar. Jarmusch foca nesse assunto com tamanha simplicidade e sinceridade, que aquele marasmo do primeiro ato, transforma-se na mais bizarra aventura, da qual mergulhamos com ingenuidade parecida à dos personagens em questão.

Se houvesse um filme no qual exemplificar toda a natureza humana, sem pastenejar escolheria esse. Não pela abrangência de conteúdos novos, ou pelas famosas cidades compostas no título. Isso é apenas um pretexto fantasioso pra mesma realidade chata, enfadonha, porém, realidade essa em que vivemos, realidade aquela em que construimos nossos sonhos. Realidade na qual tomaremos um café, acenderemos um cigarro e jogaremos um baralho como animais perdidos e ociosos.

Contudo, os três viajam, esperançosos que algo poderá mudar. Mas nada. As apostas de Willie só mudam de endereço e o desapontamento de Eve só muda de apartamento. Tudo permanece tão enfadonho, tão sem-graça, que continuam contentando-se com os cafés, cigarros e baralho já citados. E quando dizem que cinema é trascedental, eis um belo exemplo do quão presente ele está em nossas vidas e o quão presente nossas vidas estão nele.

Nota: 4,5/5,0

Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Richard Edson, John Lurie, Eszter Balint, Cecilia Stark, Danny Rosen, Tom Dicillo, Richard Boes, Paul Sloane

Cisne Negro, de Darren Aronofsky




Quando a belíssima Nina descobre que o aclamado diretor da escola de balé em que trabalha fará uma adaptação distorcida e vertiginosa do clássico 'O Lago dos Cisnes', seus olhos enchem d'água e seu coração pulsa como nunca. Mal sabe ela que sua perfeição dependerá, acima de tudo, dos sacrifícios pessoais.

É assim que o novo filme de Aronofsky dá suas caras ao público. E é do mesmo jeito que enlouquecemos com sua trama perturbadora e intensa, seu mais novo suspense psicológico. Bem, vamos a história. Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas interiores, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis).

Primeiro de tudo, é importante ressaltar que além da trama envolvente e muito bem produzida, Cisne Negro é um filme de atmosfera. De clímaxes desconcertantes, assustadores e, por vezes, clasutrofóbicos. A fragilidade quase infantil da 'sweet girl', como é chamada pela mãe, é posta à prova no papel que lhe atormenta cada vez mais. Como ela bem sabe, não conseguirá realizar os dois papéis excedendo à seu lado meigo, deixando-se entrar por um aspiral de perfeição doentio e aterrorizante. Quando Nina vê sua face enquanto caminha, há uma negação da própria personalidade, como se ali, em uma fração de segundo, houvesse uma poderosa mulher, aprisionada em um corpo aquém do que poderia suportá-la.

Nesse clímax ainda misterioso que Aronofsky dá seus primeiros passos, ainda naconstrução fértil da trama. O segundo ato, diferentemente do primeiro, sacramenta algo que já estava no nariz de Nina, mas só ela não conseguia enxergar: sua natureza era boa demais para encarnar os dois lados da moeda, os dois demônios que causariam-lhe uma total perda da realidade. Assim como Aronofsky dita cada passo na insanidade, Natalie Portman contribui ainda mais na construção de Nina, fazendo-a com um realismo ímpar. E os dois, como os Cisnes já mencionados, trabalham juntos, no apoteótico desfecho.

Desfecho esse que transforma uma mártir conturbada numa heroína atormentada; consolidando a insaciável busca pela perfeição, que só é possível de ser alcançada com esforço, insanidade e principalmente, muito sacrifício. Desfecho esse que assassina sua principal estrela, em pról do espetáculo; mas é tudo tão perfeito, tão lindo e tão devastador que é impossível que tamanha ruína não sugue sua entrega em pról da vida. Eis Cisne Negro, ou melhor: eis A perfeição.

Nota: 4,5/5,0

Direção: Darren Aronofsky

Elenco: Natalie Portman, Vicent Cassel, Winona Ryder, Mila Kunis


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Uma conclusão de um escritor informal

Cada dia que vivo, mais vejo que é necessário escrever pra não enlouquecer.

Um devaneio qualquer

Pairou-se um vazio sobre mim. Descomunal, alarmante, arrasador. Ocorreu-me que viver é uma sorte e um azar, ao mesmo tempo. Estamos sujeitos às alegrias da vida, assim como às tragédias. É um paradoxo de caminhos. Você se cansa por não saber os porquês da vida, mas se os soubesse, acabaria com a graça de tudo. É como um truque de mágica; se soubéssemos o segredo por trás do show, não iríamos mais assistí-lo. A existência humana, pode ser fugaz e veloz, como também pode ser duradoura e sofrível. Isso dependerá das peculiaridades de cada ser, das peculiaridades ínfimas de cada vida presente aqui na Terra. Desde a pequena semente no fundo de cada plantação até a possível existência de uma entidade superior, tudo é misterioso, tudo é miraculoso. Do vazio humano, surgem os hábitos e vícios; a fissura por um café e cigarro ou o desejo de um bate-papo informal. Mas a lacuna sempre estará presente em nossa rotina, por mais que não a vejamos.

Ocorreu-me, enquanto filosofava sobre esses aspectos, que nossa vida é tão significante(ou insignificante, depende do posto de vista) quanto à de parasitas invisíveis ou animais ferozes. Só preferimos esconder esse fato pelo inconveniente que essa nova concepção de mundo traria em nossa vaga existência. Assim como esse fator um tanto quanto óbvio, pensei no sofrimento humano, nas angústias de cada ser. É inevitável que não nos sensibilizemos com morte, dor, alienação, enfim, todos os aspectos miseráveis presentes nesse mundo. E novamente, há o paradoxo da alegria e da tristeza; do êxtase e da dor; da felicidade e do sofrimento; e por aí vai.

Até os seres humanos mais inteligentes, foram sucumbidos pela dor da existência. Ou será que as relações evidentes entre genialidade e loucura são meras coincidências? Os insanos, os atormentados, são os que mais ofereces, pois descrentes perante a vida e as pessoas, fazem de tudo para mudar esse panorama angustiante.

Pensando em todos esses temas, ocorreu-me outra conclusão, agora pra finalizar: Os mais felizes são os que estão mais longe da própria existência, correndo de si mesmo.

domingo, 2 de janeiro de 2011

No escuro, tudo fica mais claro

Na solidão da madrugada é que os homens conhecem seus verdadeiros demônios. Eu, por exemplo, sou um desses caras. Troco o dia pela noite nas férias, pelo simples apreço que tenho pela madrugada e seus alicerces. O silêncio, a solitude, tudo é processado de melhor maneira, não é à toa que grande parte dos meus textos são escritos nesse horário. Enquanto todos dormem, eu consigo organizar meus pensamentos, reavaliar meus desejos, redefinir meus gostos. O silêncio proporciona uma sensação unica, da qual poucas vezes podemos experimentar no dia-a-dia... Em contrapartida, os fantasmas estão mais intensos, pois frente à si mesmo, não pode renunciá-lo como faz no decorrer do dia. É preciso mergulhar, adentrar, afundar, para que sua volta seja gloriosa e possa desmistificar alguns desses tormentos. E só assim, finalmente, é possível dormir; exorcisando meus demônios, para que minha mente esteja em perfeita sintonia com minha parte biológica e repetir tal hábito dia após dia.

sábado, 1 de janeiro de 2011

A voz do desespero




Há pouco de 30 anos morria Ian Kevin Curtis, da sombria banda Joy Division. Ian Curtis era um daqueles sujeitos difíceis de descrever... angustiado, introspectivo, epilético e genial, Curtis foi tomado, durante seus breves 23 anos de existência, por uma terrível sensação: a da solidão. Uma sensação poucas vezes experimentada pelos mortais, uma solidão existencial, uma sensação de estar em todos os lugares, mas não pertencer à nenhum deles. Curtis não sabia como lidar com o sucesso crescente do Joy Division, assim como sentia-se culpado pela relação extraconjugal que estava tendo com uma bela jornalista belga, além de não se achar(o que realmente não era) um bom pai. Alguns dizem que, a profundidade do poeta nunca coube desse mundo, por isso, ainda jovem, suicidou-se. Eu, em contrapartida, creio que Curtis foi um indivíduo como os outros que, com uma sensibilidade acima da média e sérios problemas de relacionamento, sentiu-se atormentado demais para viver nesse mundo. Sentiu que, acima de tudo, seus fantasmas não cabiam aqui. Por esse motivo, deu cabo a própria vida e até hoje, é considerado uma das vozes mais aflitas do rock. Suas letras servem como diagnóstico claro de sua personalidade sombria; lotadas de referência à dor, morte, alienação e violência, refletem aquilo que Curtis sentia e não partilhava com ninguém. Somente consigo mesmo, através da música.


Em contrapartida, os outros membros da banda não tinham nada de cinzento. Logo após o suicídio do líder conturbado, criaram uma nova banda, chamada New Order; com uma sonoridade completamente diferente, demonstravam que aquele clima claustrofóbico do Joy Division era um reflexo claro da personalidade confusa de seu vocalista.

P.S.: Depois eu posto dois dois vídeos da banda. É porque estou apanhando aqui pro html. Enfim, quem quiser conferir antes, é só escrever "Joy Division" youtube e ir adiante.


O caminho

Aquele caminho era demasiado sombrio para explorar. Os sonhos estavam submersos por uma sombria capa de plástico. Nada daquilo parecia real, digno de existir. Tudo ainda estava distante dos sonhos que tivera, daquilo que um dia imaginei como solidão. Era muito além de qualquer projeto humano. O túnel estava sendo tomado por um silêncio jamais experimentado, por palavras ainda não pronunciadas. O breu parecia interminável naquela reta, talvez porque aquele túnel fosse realmente infinito. Ficara com medo de adentrar por aquele local até então desconhecido, escuro, quiçá até assombrado. Meu coração palpitava intensamente, como uma cigarra cantarolando num belo alvorecer. Era o único som que escutava. O barulho do coração chocando-se contra o peito pareciam verdadeiras explosões, apoteoses naturais, provavelmente amplificado pela sensação momentânea. Entretanto, lembro-me que acordei, nesse exato momento... levando-me à recordar que solidão verdadeira não existe, não nesse mundo. Infelizmente.

2011 (ou mais um dia qualquer)

A transição entre os anos sempre pareceu um dia normal para mim. Não culturalmente, porque sempre há aquela tradicional reunião entre familiares, foguetório, bebedeira... digo objetivamente mesmo. As coisas não serão melhores ou piores porque mudamos de ano e pronto. As pessoas vão deixar de sofrer porque desejamos "votos de paz" ou não ficaremos ricos por causa de lentilhas. Podemos gostar do gosto das lentilhas e preferir pedir um "feliz ano novo", mas nada disso, de fato, irá mudar alguma coisa. O que realmente poderá mudar, são as nossas atitudes, os nossos gostos, os nossos amigos... tudo isso pode(e costuma) mudar, de ano para ano. E não pensemos que é por causa de uma virada anual culturalmente inútil... é somente porque é uma das leis da vida; a mudança. Assim como muita coisa provavelmente mudará em 2011, muita coisa mudou no decorrer de 2010. É somente uma data, mas como as pessoas têm uma inexplicável necessidade de festas, manutenção de tradições antigas e orações positivas, comemoramos a virada anual como uma data realmente especial. Vestimos brancos, pulamos 7 ondas e usamos cuecas novas (generalizando as tradições mais comuns). Mas o que vale, no final, é reunir os familiares, curtir o primeiro porre do ano e curtir o bom e velho rock and roll. Porque o resto, é resto...